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Bikepacking em família à volta do Faial

Vídeo da viagem com imagens do trabalho fotográfico que o Mário realizou na ilha.

No mês de abril de 2022, o Mário teve de ir ao Faial em trabalho e decidimos aproveitar esta oportunidade e irmos com ele para uma aventura de bicicleta em família pela ilha. Precisávamos de continuar a aprender sobre viajar de bicicleta, e a oportunidade pareceu-nos maravilhosa.  

Mas a história não começou nada bem… No dia do nosso voo de ida, apanhámos uma tempestade no Faial, a companhia aérea com medo de não conseguir aterrar na Horta e ter de voltar para trás, ou seja, necessitar do combustível, decidiu deixar as bagagens de TODOS os passageiros em Lisboa 🙄A nossa sorte é que temos amigos no Faial (que têm um alojamento local @quintadotorcaz mas que estava lotado), que nos foram buscar e arranjaram um sítio (lindo, @azulsingular.glamp) para dormirmos.

As bicicletas chegaram na tarde seguinte e o atrelado da Madalena só chegou ao fim do dia, vieram em dois voos diferentes (mas chegaram, uffa!!). Assim, iniciámos a aventura um dia e tal mais tarde do que era suposto. Mas, depois de todos os contratempos, a Família Chan estava pelo Faial de 🚲

No primeiro dia da aventura, ainda estava presente a tempestade a por isso o dia foi de chuva e vento fortes 😬. O percurso que traçámos era a passar pelo Vulcão dos Capelinhos, pela rota dos vulcões e pela Caldeira. Começou logo com um furo no pneu do Miguel 😅, e o resto do dia foi seeeeeeeempre a subir. Chovia, chuviscava, estava encoberto e tivemos de alterar o percurso porque havia um troço bastante inclinado. Optámos por seguir por outro caminho, fizemos muita estrada, pouco movimentada, quase não vimos carros, mas estrada é estrada, a mim desmotiva, não me sinto entusiasmada e até pelo contrário desgasta-me psicologicamente.

Foi um dia duro, mas encontrámos um local muito giro para dormir, no meio da floresta e da vegetação incrível que caracteriza os Açores e que nos revitalizou!

A manhã seguinte foi feita através de um caminho de terra ao longo da falésia, muito bonito, daqueles que dá vontade de estar sempre a parar para registar a paisagem e os pormenores. Este caminho levou-nos até à Casa dos Baleeiros, que com pena nossa estava fechada. Soubemos depois que lá dentro tem o único exemplar original dos botes antigos dos Baleeiros, seria muito giro visitar. Quem vai na época alta terá mais sorte que nós.

Depois da Casa do Bote chegámos ao vulcão dos Capelinhos, o último vulcão a entrar em erupção no Faial, em 1958. A zona mais árida da ilha e que ainda está coberta de cinzas. Ali existe o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, mas infelizmente estava fechado era 2f, só abre de terça a domingo. Almoçámos por ali, junto ao farol e subimos até ao ponto mais alto para observar o vulcão, falámos mais uma vez sobre lava, cinzas, vulcões, tipos de explosão, etc. É um tema que os miúdos gostam e não se cansam, e quando regressámos à bicicleta a Madalena já tinha na mão mais três pedras vulcânicas para levar para casa 😅

Seguimos viagem, uma vez mais a subir 🙈, para percorrer uma parte da Rota dos Vulcões. Nos Açores, cada ilha tem o seu encanto e o Faial tem inúmeros vulcões, pequeninos e tão perfeitinhos, giríssimo de se ver. Percorremos o caminho sempre com nevoeiro, dá um certo misticismo à cena, mas não se vê a paisagem! Nesse dia ficámos a dormir no Cabeço dos 30, um dos vários vulcões desta zona, e como se consegue subir mesmo até à cratera decidimos levar as bicicletas até lá, à mão está claro, e dormir mesmo junto à cratera do vulcão. Foi uma experiência única e bem gira para todos 😊.

Na manhã seguinte tivemos um dos maiores sustos das nossas vidas!  Na noite anterior chegámos ao local de pernoita, abrimos a tenda, o Miguel ajudou em tudo, inclusive a colocar colchões e sacos cama, enquanto o Mário estava a preparar o jantar, e derrepente quando olhámos para o Miguel ele estava a dormir. Quantas vezes os vossos filhos adormeceram sem jantar porque estavam cansados? Aqui por casa já aconteceu, e por isso mesmo deixámo-lo dormir. 

De manhã a Madalena acordou, ele continuava a dormir, deixei dormir mais um pouco porque achei eu, o menino está cansado. Naquela altura ele já pedalava rápido nestas aventuras, o Faial tem muitas subidas, estava a ser exigente e por isso mesmo achei super normal o miúdo estar cansado. O que é certo é que passado uma hora de movimentação nossa na tenda ele não havia meio de acordar, e parecia que estava mesmo ferrado porque nem se mexia. Começámos a achar estranho e resolvemos acordá-lo. Mas o Miguel não reagiu…não respondia, não conseguia abrir os olhos, apenas emitia uns sons pouco perceptíveis. Puxei-o para o meu colo, ele nem equilíbrio de tronco tinha, o Mário puxou-o para fora da tenda, estava frio lá fora e era para ver se o choque térmico o ajudava a acordar, no colo do Mário, agarrado ao pescoço dele pelo menos começou a tentar abrir os olhos. Lembrei-me que ele não tinha jantado, eu e o meu pai temos a glicemia (nível de açúcar no sangue) baixa e por isso às vezes acontece quando fico muitas horas sem comer, sentir-me fraca. Dei-lhe aos poucos sumos de fruta, tentei dar água mas era mais difícil porque com menos reacção, tinha mais dificuldade em engolir líquidos, fizemos papa e dei-lhe o possível. 

Aos poucos começou a ser capaz de abrir os olhos e mantê-los abertos por alguns segundos, lá começou a tentar responder ao que eu perguntava e só queria sair do meu colo para se deitar novamente. Foram uns 40min de stress como devem calcular! Entretanto fomos andar, ele foi voltando ao normal, ficou mal disposto mas quis almoçar, e à tarde, de bicicleta na mão começámos a sair daquele local e por sorte o caminho era a descer e conseguimos andar pouco e encontrar um local lindo para dormir, descansar e passear.


Tínhamos consulta dos 7anos em Maio e aí expusemos a situação à nossa pediatra, ele pediu alguns exames para despistar patologias. Tem os níveis de ferro em baixo, mas outras patologias mais graves foram excluídas 🙏🏻 Notamos que dorme muito mesmo em casa. Estamos a reforçar os alimentos ricos em ferro na alimentação e vamos estando atentos.
Falando de uma forma básica, o que aconteceu foi, o Miguel gastou muita energia durante o dia, fez exercício e depois como não jantou, quando o organismo foi tentar repor a “energia” ela não estava lá 🤦🏻‍♀️Visto agora de fora, faz todo o sentido, mas na altura quando o vi a dormir pensei mesmo “oh tadinho estava tão cansado que adormeceu”, e nem me ocorreu que era importante jantar porque precisava de repor o que tinha gasto. Ele teve um pico de hipoglicemia, que podia ter corrido mal se o tivesse deixado dormir mais um pouco… Felizmente que percebemos a tempo e agora estamos mais alerta. Quando houver exercício metam os vossos miúdos a comer seeeeempre antes de dormir 😅

Voltando ao Faial, no passeio que fizemos depois do pequeno almoço, descemos a cratera do vulcão dos trinta e lá em baixo tem um túnel que atravessa o vulcão e é o delírio para os miúdos. Para além de sentirem que estão a atravessar o vulcão ficam encantados com a escuridão e com as enormes teias de aranha, desenhadas com tanto pormenor por este bicho que a Madalena adora 🙈 Voltámos à tenda, arrumámos o material e seguimos viagem. Este dia era a descer e com paragens para visitar a pé, seria um dia mais calmo.

Primeira paragem, Levada. A Levada da Ilha do Faial é um caminho pedestre de cerca de 7km, num percurso linear que nos permite embrenhar pela flora lindíssima da ilha e podermos sentir que estamos num mundo completamente diferente. É mesmo muito bonito todo aquele meio envolvente. Ao longo do caminho temos pequenas cascatas que recolhem a água vinda da Caldeira. Tinha chovido muito e estava bem enlameado 😅 Aconselho umas galochas para este passeio eh eh

Paragem seguinte, Parque Florestal do Capelo. É um parque muito bonito, com mesas de piquenique, casinhas de abrigo, fontes e barbecues construídos com lava, tem um cantinho para os miúdos brincarem nuns carrinhos de madeira e não lhes falta espaço para correr e brincar. Há pavões que fazem as delícias dos mais pequenos e há também veados. A seguir ao passeio continuámos o caminho e tivemos dos únicos momentos de céu limpo e sol na ilha do Faial durante a nossa viagem.

Passámos por uma estrada com uma paisagem incrível, já disse, mas tenho de repetir, a flora desta ilha é qualquer coisa de maravilhoso 💚Neste local o Mário partilhou comigo que já tinha passado por ali de carro, enquanto estava sozinho na ilha, e que a sensação de bicicleta é completamente diferente…parecia que era outro local! O facto de haver o esforço para chegar ali, de sentir o vento e a chuva na cara, modifica a forma como vemos e sentimos o local e o momento. Viajar de bicicleta transforma mesmo a experiência da viagem.

Não sabíamos ao certo onde íamos ficar, mas o objetivo naquele dia era andar pouco e acampar cedo para descansarmos. Avistámos umas árvores da estrada, parámos as bicicletas e o Mário e o Miguel foram ver se o sítio era bom. Vieram os dois encantados, um a dizer que parecia o sítio dos dinossauros, outro a dizer que parecia que estávamos mesmo na selva, resumindo, o local para pernoitar estava encontrado! Bicicletas à mão até lá que até um riacho havia no meio para atravessar 😅 Mas realmente o sítio era incrível. Ainda deu para caminhar um pouco nas redondezas e observar as vacas que moravam ali mesmo ao lado.

Nessa noite choveu muito, quando acordámos continuava a chover e durante toda a manhã continuou a chover, mas a chover bem 😅 Impermeáveis vestidos, hora de sair da toca e ajudar a arrumar as coisas. Nesse dia, fizemos tudo seguido até à @quintadotorcaz onde os nossos amigos nos receberam tão bem e o banho quente foi uma delícia😊

No primeiro dia que estivemos na ilha do Faial, como não foi possível iniciar logo a nossa aventura de bicicleta, fomos passear de carro e um dos pontos que visitámos foi o Museu da Horta. Ficámos fascinados com a história das ligações por cabo, das telecomunicações, que desconhecíamos de todo.

Texto retirado do museu: “No século XIX, após já ter sido efetuada uma ligação direta entre a Europa e a América por cabo submarino, os Açores dada a sua posição geográfica no Atlântico foram disputados pelas potências internacionais para o estabelecimento de uma ligação intermédia entre os dois continentes. A partir de 1855, o governo português receberia diversas propostas e projetos, quer a título individual, quer por parte de companhias privadas, mas este tornou-se um processo decisório moroso, dadas as rivalidades internacionais e o domínio da diplomacia britânica sobre o Estado Português. Só a 22 de Agosto de 1893, se completava a ligação entre Carcavelos Ponta Delgada – Horta, mediante um contrato com a Telegraph Construction and Maintenance Company, a partir do qual começariam a desenvolver-se novos projetos de lançamento de uma rede de cabos submarinos ligando o arquipélago ao continente português, e daí a outras partes do mundo. A ilha do Faial revelar-se-ia o principal ponto intermédio de ligação no Atlântico Norte. Entre 1900 e 1928, ficaria ligada à Alemanha, Canadá, Estados Unidos da América, Irlanda, Cabo Verde, Itália e França, fixando-se os principais pontos de marração do seu lado norte, na praia da Conceição, e do lado sul, na zona de entre montes, em Porto Pim.”

No Museu da Horta, destaca-se também a coleção única do mundo de trabalhos realizados em miolo de figueira pelo faialense Euclides Silveira da Rosa . É constituída por peças iniciadas em 1936 e executadas ao longo de 10 anos. São lindíssimos, de uma perícia brutal mesmo!

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